CONTRADIÇÕES

              CONTRADIÇÕES

Saturo tons de ocre por tudo
Se não tivesse voz eu era mudo bem sei

Mas que me vale tanta eloquência
Meus sonhos, minha boca
esse riso tudo é descompasso
Tudo é falência bem se vê

Arrasto correntes em prantos
esse ranger de dentes essa calma
Duvido que eles existam!
Pois nem o mármore é tão frio assim
Duvido até de mim mesmo
Pois como se fora acalanto
Eu lembro teu riso e esse pranto
é tudo que há pra mim

Saber confuso que nada traz de real
Não há razão: é só o que penso
Sou crime e confusão e vazio...
Como não seria se sou tão humano?
Possuo a dor de mil almas, encravadas dentro de mim
São tão persistentes, não há quem as possa libertar

Por isso falam em meu ser todo tempo
As vezes soa palavra alguma, só um lamento
Como um lobo ferido clamando por sua solidão

Criatura da noite, passo dias do mundo sumido
Eu vago perdido até me encontrar
Tenho as mãos feridas, os olhos vermelhos
É o destino das intempéries derramado em mim

Não me digo feliz, mas algo tranquilo
porque ainda me resta o sentir
Se torto, se roto, só sei que é sincero

E enquanto não tenho respostas
Sei que a vida me trará mas um segundo, é o que peço
Até que sacie esse desespero de conhecer

Desvendar o que é oculto
Se não houvera essa sede não seria eu humano talvez... 
Seria gado, seria pedra; seria somente a solidão d'uma ilha
batida por ventos furiosos

O que me salva é essa inquietação, essa vontade de descobrir
E por isso sei que ainda existo costuro palavras
Nessa simbiose estranha na qual meu ego se alimenta
Até que me falte a razão

J. Sollo
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